A história de Vicente Navarro não é apenas sobre futebol. Antes de tudo, é sobre pertencimento, memória e resistência emocional. Sócio número 18 do Valencia, ele ocupava religiosamente a cadeira 164, fileira 15, da tribuna central do Mestalla. Ali, portanto, o estádio deixava de ser concreto e virava casa.
Durante décadas, Navarro nunca perdeu um jogo do Valencia. Nem mesmo quando a vida resolveu testar sua fidelidade de forma cruel. Aos 54 anos, perdeu completamente a visão. Ainda assim, seguiu indo ao estádio. O futebol, então, continuou existindo para ele pelos sons, pela vibração da arquibancada e, sobretudo, pela voz do filho, que passou a ser seus olhos durante as partidas.
Desde os seis anos, o filho sentava ao seu lado. Com paciência e afeto, descrevia cada jogada, cada movimento, cada explosão da torcida. Dessa forma, o futebol passou a ser narrado em tempo real, numa transmissão íntima, feita de amor e cumplicidade. Mesmo sem enxergar, Vicente via tudo.
Um lugar na arquibancada que virou eternidade
Vicente Navarro faleceu em 2016. No entanto, sua ausência nunca foi completa. Três anos depois, em 2019, ano do centenário do Valencia, o clube decidiu eternizar o torcedor que jamais abandonou sua cadeira. Assim, uma estátua de bronze foi colocada exatamente no lugar onde ele sempre esteve: cadeira 164, fileira 15. Não em um hall de troféus, nem em um pedestal distante. Mas, simbolicamente, no meio da torcida. Onde ele sempre pertenceu.
O gesto, portanto, fez parte das celebrações dos 100 anos do clube, comemorados em março de 2019. Além disso, foi um ano especial também dentro de campo, já que o Valencia reagiu a um início turbulento, garantiu vaga na Champions League e venceu o Barcelona na final da Copa do Rei.
Vicente Navarro não viu aquela temporada histórica. Contudo, sentiu o Valencia por décadas. Empurrou o clube nos dias fáceis e, principalmente, nos mais duros. Hoje, segue ali, no mesmo lugar de sempre. Em silêncio. Presente. E eterno.

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